06/04/2009

Valor Econômico, 6/3

Ausência dos museus nos planos de investimento público é inexplicável

Museus são componentes adultos da cadeia economicamente produtiva

Teixeira Coelho, professor de política cultural da ECA/USP e curador do Masp, escreve para o “Valor Econômico”:

Tratar enfim os museus como componentes adultos da cadeia economicamente produtiva, quer dizer, como objetos e sujeitos de investimento, é sinal de sensibilidade e inteligência. Números oficiais mostram que a cultura emprega (dá trabalho, em todo caso) mais pessoas que o setor automobilístico.

Talvez o PIB da cultura não seja maior que o PIB automobilístico. Mas um país não vive só de PIBs concentracionários e sim, primordialmente, de uma renda difusa ao alcance direto de cada um, por menor que seja essa renda na cultura (e não é tão pequena).

Portanto, bem-vinda a iniciativa MinC e do Ministério do Turismo em favor dos museus. Talvez conduza a uma correspondente ação do BNDES, que já apoiou a indústria automobilística e é agora chamado a socorrer as faculdades privadas.

A ausência dos museus nos planos de investimento público vem de longe e é inexplicável. O cinema leva fatias enormes desses recursos, que incluem programas como o paulista Vá ao Cinema, que distribui neste ano 2,5 milhões de ingressos, rendendo, ao distribuidor, R$ 3 por cabeça que ingresse numa sala escura.

Um único museu de São Paulo recebe por ano um quarto desse público. Todos os museus somados, o número final é eloquente. Mas, para os museus, nada existe.

Que o Turismo seja o primeiro parceiro desse projeto é mais que justo. A publicidade oficial de algumas cidades, como São Paulo, sempre incluem imagens de seus museus destacados (um deles aparece sempre) e o mesmo fazem os filmes de boas-vindas que empresas aéreas mostram a seus viajantes para o Brasil.

Um certo museu paulistano (o mesmo) aparece como um dos mil lugares a ver antes de morrer no livro de mesmo título de uma jornalista americana. A propaganda para a cidade é grande. Mas, na hora de pagar as contas, cada museu que se vire como puder.

O campo de desenvolvimento econômico autônomo dos museus não é elástico no Brasil. O Louvre recebeu em 2008 mais de 8 milhões de visitantes, recorde histórico seu. E uma visão cultural e empresarial atualizada dotou-o de infraestrutura comercial que o ajuda a pagar parte de seus custos (o museu é um "negócio" sui generis: quanto mais aumenta seu público, mais aumenta sua despesa...).

Museus brasileiros não conseguirão multiplicar por 10 seus públicos. São Paulo não é Paris nem o Rio tem um Guggenheim-Bilbao. Mas se o MinC e o Turismo propuserem, com o BNDES, programas de estímulo ao aumento das coleções, estagnadas há décadas (por enquanto, as obras só saem do Brasil, não entram nem ficam), o público aumentará e a renda também. Números existem para comprová-lo.

Em suma, museus são bons negócios – para a cidade, para a região, para o país. Menos para eles mesmos. Ainda que poucos, já há visitantes que vão a certas cidades do Brasil ver certas obras de certos museus.

E uma ida ao museu corresponde, por baixo, a duas noites de hotel, duas viagens em táxi, duas refeições em restaurantes... É fatia do bolo econômico para não desprezar, sobretudo numa época em que, felizmente, o PIB do país não depende só de dois ou três produtos.

Museus são estratégicos sob mais de um aspecto, a começar pelo simbólico. São signos de cidades desenvolvidas, de cidades mundiais, diversificadas no lazer e no conhecimento, capazes por isso de atrair investimento.

Museus são bandeiras das cidades criativas, parte importante do índice de qualidade de vida. Portanto, nada mais correto, inteligente e sensível que surja um plano de apoio econômico aos museus, mesmo que sob o pretexto do turismo.

Mas os museus são dignos de apoio público pelo contrário de tudo isso. Museus não são apenas valor de troca, como carros e roupas (que quase nunca chegam ao fim de seu ciclo: transformam-se em sucata antes de morrer de suas mortes naturais).

Museus são valor de uso. De certo modo, tratar os museus como alternativa de lazer é, senão um insulto, no mínimo um menosprezo. Museu é lugar de produção do conhecimento, de modos de ver, entender e agir sobre a vida e o mundo.

Tão bons quanto os modos que fornecem as faculdades, privadas ou públicas. Frequentemente, melhores – porque não sectários, sempre renovados, não obrigatórios. E modos de produção da socialidade como poucos outros lugares, práticas e instituições podem ser.

Um museu atravessa fronteiras, projeta a cidade, a região e o país no cenário internacional, aquele onde todos precisam estar hoje num mundo afinal pequeno, minúsculo, que não mais tem espaço para confinamentos.

Quer dizer: o museu faz isso se, como no resto do mundo, houver uma política pública de estímulo, compreensão e cooperação que será o exato oposto de uma política de esquecimento, confronto e apequenamento.

Portanto, não é só por seu valor de troca que o museu deve ser apoiado. Nem só por seu valor de uso. O museu é o lugar do excesso, do que não tem valor, do que não tem mais sentido nem nunca terá – e que valor enorme tem tudo isso...

O museu é o símbolo do antiprodutivismo, vírus que se revela outra vez exacerbado nesta nova e cataclísmica crise financeira que já é econômica e será social. Muito além de ser o minúsculo e limitado altar do culto à memória em que querem confiná-lo, numa visão cultural curta, o museu é o lugar dos valores opostos àqueles em circulação, valores que toda sociedade atenta deveria cultivar.

Em outras palavras, o museu é um dos marcadores fortes deste outro mundo que se quer ver possível, desta alteridade que se prega hoje como a grande novidade e muitas vezes não é nada mais do que o mesmo modelo atual com sinal trocado.

São argumentos mais que suficientes para justificar a ação do MinC, do Turismo e do BNDES que, se espera, logo deverá vir atrás. Uma ação que seja completa, que pense no sistema: apoio à aquisição, à manutenção, ao ingresso, à arquitetura brilhante (definida sem reserva corporativa de mercado), à educação no e para o museu. Num setor que não está em crise: que vive em crise há muito tempo. Mesmo quando o país ia bem.
(Valor Econômico, 6/3


Sim! Museu na Valor Econômico!!! rsrs Não concordo mt com o final.. mas é um bom texto...

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