29/11/2009

Polacas: mulheres do mangue

Destino do 'Cemitério das Polacas' provoca polêmica

Abandonado por muitos anos, o Cemitério Israelita de Inhaúma está hoje no centro de uma delicada discussão no seio da comunidade judaica do Rio. O campo-santo é atualmente administrado pela diretoria do Cemitério Comunal Israelita do Caju, que apresentou à Prefeitura um plano de recuperação da área. O projeto prevê a reconstrução de uma capela e de uma área de preparação dos corpos, entre outras intervenções que permitirão a realização de novos enterros no local, oferecendo uma alternativa à necrópole do Caju, que está lotada, enquanto a de Inhaúma ainda tem cerca de 50% de área ociosa.

A historiadora Beatriz Kushnir denuncia o projeto como uma tentativa de expurgo da memória das mulheres que constituíram a Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita. Beatriz aponta que a reforma incluiria o cercamento dos túmulos já existentes, através de muros ou cercas-vivas. A historiadora atribui a medida às normas judaicas que estabelecem o isolamento de prostitutas e suicidas nos cemitérios.

— O que se quer fazer é, à força, colocar muretas, cercas-vivas, ou o nome que se der, no cemitério, e condená-las definitivamente como párias. Isso apagaria a memória do local, tiraria dele a ideia de sítio histórico — critica Beatriz.

O presidente do Cemitério Comunal Israelita do Caju e vice-presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, Jayme Salomão, alega que o projeto não isolaria os túmulos. Segundo Salomão, não seriam construídos muros e as cercas-vivas apenas dividiriam o terreno em quadras: — Queremos preservar o legado deixado por nossas antepassadas. Mas a ideia não é transformar Inhaúma num museu, e sim reaproveitá-lo como um cemitério.

Salomão afirma que o objetivo do projeto é permitir que a venda de novos túmulos gere receita para bancar a manutenção do cemitério. O projeto para a construção de novas instalações está orçado em R$ 800 mil. A restauração das lápides depredadas teria um custo estimado de cerca de R$ $1,2 milhão, calcula. Segundo Salomão, o dinheiro para as reformas seria coletado entre a comunidade judaica, sem participação do município. Determinada a preservar o caráter de sítio histórico do cemitério, Beatriz propõe uma solução alternativa para o impasse. A pesquisadora lembra que a última presidente da associação, Rebecca Freedman, morta em 1984 aos 103 anos, foi enterrada no Cemitério Comunal Israelita do Caju ("sem cerca em volta da lápide", ironiza). Beatriz sugere que o corpo de Rebecca seja transferido para Inhaúma, junto das companheiras de associação, e que seu jazigo no Caju seja vendido. Mesmo reconhecendo as dificuldades colocadas pelas normas judaicas para a exumação de corpos, a historiadora acredita que o valor arrecadado seria suficiente para financiar a restauração das lápides de Inhaúma. Beatriz criou uma petição virtual em defesa da preservação do Cemitério Israelita de Inhaúma. A petição, que recebeu até hoje 528 assinaturas, pode ser acessada no blog da historiadora: http://polacas.blogspot.com


Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/#245188


2 comentários:

  1. A historia verdadeira vem sendo apagada e a oficial se sobrepoe.

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  2. Aqui no Sul (RS) vêem-se coisas parecidas: cemitérios sendo destruídos para receber estacionamentos, lápides que contam a história da imigração alemã no Brasil sendo "muradas" (retiradas e cimentadas ao muro) ou simplesmente jogadas fora. Dá pra acreditar?

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