09/01/2010

Artigo de leitor sugere reconstrução do Palácio Monroe

A página virtual do jornal O Globo destacou artigo do leitor Antonio Veronese, cujo tema é a reconstrução do Palácio Monroe. O artigo segue abaixo, na íntegra.

"Aproveito o animus-aedificatio que tem todo novo prefeito para propor a Eduardo Paes a reparação de um grave erro, cometido há 30 anos, contra os patrimônios histórico e artístico da cidade do Rio de Janeiro: a derrubada do Palácio Monroe. O nosso "Senadinho", como era carinhosamente conhecido, foi posto abaixo depois de uma polêmica macunaímica que teve como ingredientes a construção do metrô e a alergia dos modernistas ao ecletismo decô.

Obra do general arquiteto Francisco de Souza Aguiar, o "Senadinho" representou o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, em 1904, onde, para surpresa dos nossos derrotistas de plantão, recebeu o Grande Prêmio do Júri. Era a primeira vez que uma obra de um arquiteto brasileiro experimentava o reconhecimento internacional.

Terminada a exposição americana, o belo palácio foi desmontado e transportado para o Brasil, onde, em 1906, foi remontado no nosso carioquíssimo Passeio Público, sendo o primeiro edifício financiado pela Federação na então efervecente Avenida Central. Recebeu, na ocasião, por sugestão do ministro das Relações Exteriores, o Barão de Rio Branco, o nome de Palácio Monroe - homenagem ao presidente norte-americano ideólogo do pan-americanismo.

O novo edifício integra-se de imediato ao feérico Centro da capital. No seus elegantíssimos salões sucedem-se, em grande estilo, a Terceira Confederacão Pan-Americana, o Quarto Congresso Médico Latino-Americano, o Congresso Internacional de Jurisconsultos, a sede do Ministério da Aviação, a sede da Câmara dos Deputados, a sessão solene de recepção ao rei Carlos, da Bélgica, a Convenção Nacional, a Comissão Executiva do Centenário da Independência... Mais tarde, ali se instalam o Senado da República e o Estado-Maior das Forças Armadas. Neste longo período de glórias, o "Senadinho" tornou-se uma grife da elegância e sofisticação cariocas.

Apesar disso, irresponsável e inexplicavelmente, o IPHAN nega-lhe o tombamento em 1970. Começa então, no hiato da autoridade federal, uma pendenga cabocla eivada de desinformações, rancores e absurdez. Chegou-se a argumentar que a passagem da nova linha do metrô, sob o Passeio Publico, justificaria sua derrubada, como se para construir-se o subterrâneo de Paris houvessem deitado por terra a Notre Dame, o Louvre ou a butte de Montmartre.

Fica difícil, relendo as paginas dessa história rocambolesca, desculpar a posição de modernistas do quilate de Lúcio Costa, que pareciam ver nesse sucesso da arquitetura brasileira do início do século 20 um desconforto às aspirações da arquitetura modernista no Brasil. Resumindo o drama: malgradas as resistências do IAB, do Clube de Engenharia e do nosso "Jornal do Brasil", em 1976 deram-se por vencedores os derrotistas, e baixaram a picareta no nosso indefeso "Senadinho".

Uma cidade é feita não somente de sua contemporaneidade, mas da sua memória coletiva, que se expressa, especialmente, na sua arquitetura. Por isso, acho que chegou o momento de reabrir essa discussão e repensar, com ousadia, o destino do "Senadinho". Se os valores histórico e de antiguidade do velho edifício perderam-se com sua demolição, resta recuperável o seu inegável valor estético. E esse já justifica sua reconstrução, que pode cumprir o papel de "representação".

Onde quer que eu vá com essa proposta tenho recebido, nos últimos três anos, calorosa manifestação de apoio. São pessoas que se sentiram impotentes no passado e que se sentem órfãs no presente. Para estes, o espaço deixado vazio no Passeio Público é um doloroso e perene registro da nossa incompetência em preservar. Paradoxalmente, essa vacuidade atua como um "monumento" no enfrentamento do oblívio. Um "monumento" que não depende de verbas públicas nem da proficiência dos administradores e que cumpre, paradoxalmente, graças à contumácia desta omissão, a função de preservar às gerações futuras a lembrança de um ato ou um destino, como na síntese de Riegl.

Além disso, a reconstrução seria de grande simbolismo numa cidade deflagrada que insiste em não se respeitar. Repropor a importância da preservação do patrimônio público, reconstruir, fazer memória, refazer, reconhecer o valor extrínseco de um edifício mesmo quando dele não mais se espere o papel que exerceu no passado. Repropor utopias, revitalizar, reacreditar, recuperar o que pode ser recuperável, apesar da insânia dos homens!

Por isso tudo continuo a acreditar neste sonho e, mais que isso, continuo a provocar a ousadia dos cariocas. Mais do que a simples reconstrução do Monroe, ouso sonhar com uma nova Cinelândia, acolhida entre o novo Monroe, a Biblioteca Nacional e o Theatro Municipal. A esse espaço público de grande beleza seria vedado o trânsito de veículos, desviando-se o fluxo da Rio Branco pela Almirante Barroso. O trânsito pesado não se justifica ali, tendo já afetado a cúpula do MNBH.

O novo Monroe poderia ser preparado para acolher um museu da antiga capital federal, e a nova Cinelândia pode transformar-se no novo centro cívico da cidade do Rio de Janeiro".


Fonte: http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/01/08/pela-reconstrucao-do-palacio-monroe-915489159.asp



Um comentário:

  1. Lembro-me de já ter lido a carta do Veronese há tempos atrás.
    Foi uma insanidade terem derrubado o Palácio Monroe mas daí a reconstruí-lo seria uma insensatez.

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