28/01/2011

Patrimônio histórico do Egito corre risco com crise política, diz egiptólogo brasileiro

O agravamento dos protestos no centro de Cairo, no Egito, pode ameaçar o patrimônio histórico do país, armazenado em museus da cidade. Nesta sexta-feira (28/01), pelo menos uma pessoa morreu e várias ficaram feridas em manifestações nas proximidades do Museu Nacional do Cairo, o mais importante do Egito.

Segundo a rede de televisão Al Jazeera, os conflitos começaram em uma praça próxima ao museu e à sede do NDP (Partido Nacional Democrático), atualmente está no poder. Uma hora depois, um incêndio nas proximidades do museu assustou os manifestantes, que fizeram uma corrente humana em volta do edifício, de acordo com a emissora.

"O Museu Nacional do Cairo é o maior e mais antigo museu egípcio, um eventual acidente como um incêndio seria extremamente prejudicial não apenas para a cultura do país, mas para todo o patrimônio da humanidade", disse o egiptólogo Antonio Brancaglion Jr ao Opera Mundi.

O museu, que abriga 100 mil objetos em exposição, possui múmias dos mais importantes faraós, papiros e objetos considerados símbolos do país, como o tesouro de Tutancâmon, um dos faraós mais famosos da história egípcia.

"Costumamos dizer que ele tem a pior exposicão dos mais lindos tesouros do mundo e esse é seu principal problema: o próprio edifício", conta Brancaglion, em referência à estrutura do prédio. Para o egiptólogo, a idade do do museu e sua localização são extremamente prejudiciais no caso de um eventual incêndio como o desta tarde.

Central e próximo a sede do partido que ocupa o governo do país, o Museu Nacional do Cairo está em uma "área de risco" no que diz respeito aos riscos que as manifestações podem trazer. Já com relação a possíveis saques e contrabando de peças, Brancaglion não demonstra preocupação.

"Um incêndio próximo ao museu ou no próprio museu seria muito prejudicial não apenas pelo fato de ele abrigar um acervo inimaginável, mas também por não ter estrutura para amenizar os danos em um acidente deste tipo", afirmou.

O egiptólogo conta que há dez anos um atentado ocorreu na frente do Museu Nacional do Cairo, o que fez com que governantes reavaliassem as medidas de segurança. A partir daí, o prédio foi equipado com câmeras de segurança e outros recursos para evitar a entrada de pessoas não autorizadas e furtos.

"O edifício, porém, é muito antigo e sem dúvida não tem uma estrutura eficaz contra incêndio", explicou. "O risco que se corre é exclusivamente em relação a esse tipo de agressão pelo fato deste museu estar próximo à principal área de manifestações. Quanto a roubos e contrabando, não acho que nenhum museu egípcio corra este risco, já que a própria população tem consciência da importância destes lugares e muitos inclusive dependem da atividade turística para sobreviver", disse Brancaglion.

Para ele, o fato de os manifestantes terem feito uma corrente humana em volta do museu ilustra a relação dos egípicios com os tesouros do país. "Isso não acontece apenas com o Museu Nacional do Cairo, mas também com o Museu do Papiro, o complexo das Pirâmides de Gizé, a Esfinge, a Necrópole de Saqqara e etc. Todos sabem da importância destes patrimônios, principalmente no Cairo, onde a principal atividade econômica é o turismo", afirmou.

Medidas

A ameaça, porém, ainda não demanda a intervenção da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ou de outras organizações, na opinião de Brancaglion.

"O máximo que pode ser feito, pelo menos por enquanto, são campanhas por parte da Unesco e da própria imprensa reiterando a importância dos museus do país e mensurando o tamanho da perda caso algum destes lugares seja danificado. Mesmo assim realmente acredito que a própria população tem consciência desta importância e irá zelar por isso, a não ser que futuros acidentes aconteçam durante os protestos, como foi o caso desta tarde", concluiu.

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