02/04/2012

Só a arte salva - Alain de Botton


Trecho de entrevista do filósofo Alain de Botton para Revista "Plastic Dreams", n. 7, da Melissa.

Hoje em dia ouvimos com frequência que “museus de arte são as nossas novas igrejas”. Em outras palavras, num mundo cada vez mais secular, a arte substituiu a religião como uma base para a nossa reverência e devoção. É uma idéia intrigante, parte de uma ambição mais abrangente de que a cultura deve substituir a escritura sagrada, mas na prática a maioria dos museus de arte abdicam muito de potencial de funcionar como uma nova igreja (lugares do consolo, significado, santuário, redenção), devido à maneira com que eles lidam com suas coleções de arte. Ao mesmo tempo que eles nos expõem a objetos de genuína importância, os museus parecem não conseguir encaixá-los e apresentá-los de uma maneira que os conecte significativamente com as nossas necessidades internas.

O problema é que os museus contemporâneos não conseguem explicar diretamente para as pessoas o quanto a arte é importante. Isso acontece em decorrência da estética modernista(pela qual os curadores são treinados), profundamente suspeita de qualquer nuance de um abordagem instrumental à cultura. Ter uma resposta sobre a importância da arte que qualquer um possa obter é rapidamente vista como “redutiva”. Nós engolimos com muita facilidade a ideia modernista de que a arte que tem como meta mudar, ajudar ou consolar seu espectador deve por definição ser “arte ruim” (a arte soviética é sempre jogada aqui como um exemplo), e apenas a arte que quer nada muito claro da gente, pode realmente ser boa. Assim, surge a pergunta com a qual frequentemente saímos dos museus contemporâneos: o que que aquilo significou? Por que que essa veneração à ambiguidade deveria continuar? Por que que a confusão deve ser uma emoção estética central? O vazio de intenção da parte de um trabalho de arte é realmente um sinal de sua importância?

O cristianismo, ao contrário, nunca nos deixa com qualquer tipo de dúvida sobre o significado da arte: um canal de ensino de como viver, do que amar e do que sentir medo. Tal arte é extremamente simples no nível de seu propósito, indiferente do quanto é complexa e sutil no nível de sua execução. A arte cristã pode ser resumida a uma série de genialidades que expressam coisas incrivelmente básicas, mas extremamente vitais: “Olhe para aquela imagem de Maria se você quer se lembrar sobre ternura”. “Olhe para aquela pintura da cruz se você quer uma lição sobre coragem”’. “Veja a Última Ceia para se treinar a não ser covarde e mentiroso”. O ponto crucial é que a simplicidade da mensagem implica absolutamente nada sobre a qualidade do trabalho em si, como uma “peça de arte”.

Isso nos dá uma sugestão: e se os museus de arte contemporânea mantivessem em mente os exemplos da função didática da arte cristã para que possam de vez em quando reestruturar a maneira que apresentam suas coleções? Vocês acham que estragariam uma pintura de Rothko se ela fosse apresentada para o público com a própria função que o artista desejava que ela tivesse: proporcionar um momento de participação num eco do sofrimento da nossa própria espécie?

Tente imaginar o que aconteceria se os museus modernos seculares levassem o exemplo das igrejas com mais seriedade. E se eles também decidissem que a arte tem um propósito específico nos ajudar a ficar um pouco mais lúcidos, ou um pouco melhores, ou de vez em quando um pouco mais sábios e gentis e tentar usar a arte em sua posse para nos ajudar com tudo isso. Talvez arte não deveria ser “ARTE PELA ARTE”, um dos mais mal-interpretados e estéreis de todos os slogans estéticos: por que a arte não pode ser como foi nas eras religiosas mais explicitamente para alguma coisa?

O grande desafio é de reescrever as agendas de nossos museus de arte para que suas coleções possam começar a servir as necessidades da psicologia tão efetivamente quanto, por séculos, eles serviram àquelas da teologia. Os curadores precisam tentar colocar de lado seus pavores do instrumentalismo e de vez em quando eleger trabalhados (sic) de arte com a ambição de que eles nos ajudem a sobreviver. Só então poderiam dizer que cumpriram de maneira adequada a excelente mas ainda esquiva ambição dos museus de em parte se tornarem substitutos das igrejas dentro de uma sociedade cada vez mais secular.

Revista (e matéria) na íntegra em: http://www.melissa.com.br/uploads/revistas/Meli_Revi_ED07_AF_baixa.pdf

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