16/07/2013

Tesouro arqueológico ganhará novo destino na Zona Portuária

Peças encontradas na região irão para Centro Cultural até o fim do ano

Área era ponto de desembarque de escravos



O Centro Cultural José Bonifácio, na Gamboa, vai abrigar a exposição permanente das peças de escravos encontradas nas escavações da Zona Portuária -
Foto: Marcelo Piu
O Centro Cultural José Bonifácio, na Gamboa, vai abrigar
 a exposição permanente das peças de escravos encontradas
nas escavações da Zona Portuária -MARCELO PIU

RIO - Pulseiras, cachimbos, miçangas, amuletos e outros milhares de objetos usados por escravos africanos que desembarcaram no Rio entre os séculos XVII e XIX — peças que compõem um dos maiores e mais ricos acervos arqueológicos da cultura negra no país — vão fazer parte de uma mostra permanente do Centro Cultural José Bonifácio, um casarão de 1877 localizado na Gamboa. Esse tesouro, descoberto durante escavações para obras do Porto Maravilha e que por quase dez meses permaneceu depositado em contêineres, poderá ser visto pelo público até o fim do ano, quando o Centro Cultural será reinaugurado, após amplo restauro. Com isso será, enfim, fechado o Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana.

O Circuito, anunciado pela prefeitura em novembro do ano passado, reúne lugares simbólicos da cultura afro-brasileira no Rio, como o Cais do Valongo, os Jardins do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo do Depósito e o Instituto Pretos Novos, além do Centro Cultural José Bonifácio — o casarão inaugurado por Dom Pedro II onde funcionou o primeiro prédio do Rio a ser projetado para receber uma escola pública e que, nos anos 90, foi transformado no Centro de Referência da Cultura Afro-brasileira, o maior da América do Sul.
— A inauguração do Centro Cultural será o epicentro desse Circuito Histórico da Herança Africana — acredita Washington Fajardo, presidente do Instituto Patrimônio da Humanidade, que tem trabalhado diretamente no projeto.
Só para restaurar o Centro Cultural foram gastos R$ 3,4 milhões, recursos da venda dos Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs), criados para a revitalização da Região Portuária.
— O prédio estava cheio de infiltrações, com problemas sérios no telhado. As obras estão prontas, o que falta agora são ajustes — diz Alberto Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento da Região do Porto do Rio.
Todo o material recolhido durante as escavações no Porto, que inicialmente ficara armazenado de forma precária em contêineres, agora está sendo analisado sob a supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), segundo Alberto Silva:
— Precisa ser feito um trabalho de catalogação, limpeza e triagem por especialistas. Nem tudo o que foi encontrado será exposto no Centro Cultural José Bonifácio. Se tivermos 30 cachimbos, serão escolhidos os de maior representatividade e relevância histórica. Se o material mais importante for mais extenso do que se imagina, pensaremos em outros espaços para abrigá-lo.
Para o historiador Nireu Cavalcanti, a exposição permanente desse material é importante porque “apresenta o cotidiano de uma população negra da qual praticamente não se tem registros”:
— Eram pessoas que chegavam aqui e perdiam sua identidade, como seu nome e origem. Então não se sabia mais nada desses escravos, Muitos inclusive faleceram nessas condições. Precisamos conhecer nossas origens, porque o povo que não conhece sua história é facilmente manipulado — explicou Nireu.
Centro terá biblioteca e restaurante
Além da exposição permanente com os achados arqueológicos do Porto, o palacete da Rua Pedro Ernesto vai abrigar também mostras temporárias que tenham a ver com a cultura negra, uma biblioteca sobre o tema, centro de convenções e, possivelmente, um restaurante especializado em culinária afro-brasileira.
Na mesma rua já funciona o Instituto Pretos Novos, que foi criado após a descoberta, em 1996, de um sítio arqueológico embaixo do piso da casa de Merced Viegas. Na época, ela fazia obras na sua casa, uma construção no século XVIII, quando descobriu que no local já havia funcionado o Cemitério de Pretos Novos, de escravos recém-chegados da África.
— A estimativa é que 40 mil escravos tenham sido enterrados lá, mas não temos como saber ao certo porque os corpos eram quebrados para ganharem mais espaço — diz Merced Viegas, proprietária da casa e que hoje mora num imóvel vizinho. — O Instituto vem recebendo cada vez mais visitantes, estudantes, jornalistas estrangeiros e cariocas interessados em conhecer um pouco dessa triste história.
A importância arqueológica do Porto ficou conhecida mundialmente em janeiro de 2011, quando arqueólogos encontraram o Cais do Valongo, por onde passaram mais de 500 mil negros vindos da África. A partir de então, equipes de especialistas coordenados pela arqueóloga Tânia Andrade começaram a percorrer toda a Região Portuária, onde foram encontrados milhares de objetos, não só de escravos. Moedas, ossos de animais, fragmentos de louças, resquícios de muralhas, trapiches, nove canhões. Hoje essa lista ultrapassa 80 mil itens.
Ponto de desembarque de escravos
Embebida na cultura negra, a região abarcada pelo Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana reúne lugares como a Pedra do Sal, o Largo do Depósito, o Instituto Pretos Novos, o Cais e Jardins do Valongo, além do Centro Cultural José Bonifácio.
— Ali era o lugar de desembarque dos escravos, um dos maiores portos de recepção da América até 1830, quando o tráfico foi posto na ilegalidade, muito embora o comércio tenha continuado como contrabando — diz Marcos Abreu, historiador especialista em Diáspora Africana. — Por causa disso, essa região toda girava em torno dessa prática.
O Instituto Pretos Novos, por exemplo, antigo Cemitério dos Pretos Novos, era o local onde os escravos que chegavam muito doentes eram enterrados em valas comuns. Já o Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores, era onde se concentravam os armazéns dos “negociantes de grosso trato” que controlavam o mercado negreiro.
— A descoberta desses artefatos, como cachimbos e amuletos, é importante porque mostra que os africanos escravizados conseguiam refazer seus laços de sociabilidade, refazer sua cultura aqui. Os escravos estavam mantendo de forma adaptada sua cultura para um novo contexto — analisa Abreu.
Segundo o artigo “ As tias baianas tomam conta do pedaço — Espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro”, da historiadora Mônica Pimenta Velloso, a história da região não se resume ao tráfico, mas se confunde com a própria história do samba. Na virada do século XIX para o XX, Saúde, Gamboa e Santo Cristo constituíam um espaço onde negros baianos emigrados para o Rio de Janeiro residiam e estabeleciam seus laços de sociabilidade e identidade cultural.
“Na Pedra do Sal surgiu o primeiro rancho carioca de que se tem notícia: o Rancho das Sereias, formado quase exclusivamente por elementos da colônia baiana. O fato se explica: a casa da tia Sadata, onde nasceu o referido rancho, era uma espécie de passagem obrigatória para grande parte dos baianos recém-chegados ao Rio. Conta-se que a casa, situada no alto do morro, oferecia uma visão panorâmica da Baía de Guanabara. De lá era possível controlar todo o tráfego marítimo. Para sinalizar a chegada de novos baianos, a embarcação já trazia na proa a bandeira branca de Oxalá. (...) Lá eles encontravam o apoio necessário para enfrentar a cidade hostil. Essa rede de solidariedade grupal acabou criando fortes vínculos entre os conterrâneos, levando-os a desenvolverem expressões culturais próprias em relação ao restante da cidade.”

http://oglobo.globo.com/rio/tesouro-arqueologico-ganhara-novo-destino-na-zona-portuaria-9049310

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