13/05/2014

Rio recebe mostra com obras de estrelas da arte do século XX

Exposição no CCBB traz à cidade parte de valiosa coleção alemã, com trabalhos de artistas como Andy Warhol, Pablo Picasso e Jeff Koons

'Cabeça de criança', de 1991, é a pintura hiper-realista que recebe os visitantes da exposição 'Visões na coleção Ludwig', no Centro Cultural Banco do Brasil (RJ) Foto: Fábio Seixo / Agência O Globo


RIO - Na década de 1980, um já consagrado Andy Warhol adotou jovens pupilos em Nova York. Um deles foi Jean-Michel Basquiat, que, mais tarde, seria também consagrado no panteão da arte do século XX. Os dois fizeram juntos uma pintura em acrílico, em 1984. Trinta anos depois, a obra surge disposta numa sala no Centro do Rio de frente para dois querubins esculpidos em madeira pelo renomado Jeff Koons, no mesmo ambiente onde está uma pintura do mestre espanhol Pablo Picasso, outra de Roy Lichtenstein e mais uma de Warhol.
Como nesta sala, o segundo andar todo do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio será ocupado por trabalhos de estrelas da História da arte, a partir desta terça-feira, às 19h30m, quando exposição “Visões na coleção Ludwig” tem abertura para convidados (e nesta quarta-feira, para o público). Trata-se de um valioso recorte — de valor estimado em R$ 500 milhões — do acervo de 20 mil obras formado ao longo de mais de meio século pelo casal alemão Peter e Irene Ludwig. Todas as peças agora no Brasil vieram da Rússia, do Museu Ludwig em São Petersburgo, para o qual os colecionadores doaram centenas das obras de arte que compraram.
Orçada em R$ 4 milhões, a mostra passou por São Paulo no início deste ano e cruzará a Copa do Mundo no CCBB carioca (até 21 de julho), ao lado da exposição de Salvador Dalí (esta no primeiro andar da instituição, com abertura marcada para 29 de maio). No final de agosto, “Visões na coleção Ludwig” deve ir a Belo Horizonte. Embora circulem pelo país mais de 70 obras do acervo alemão, no Rio serão vistas 56 delas — o tamanho da mostra vem sendo adaptado aos espaços expositivos; em São Paulo, por exemplo, o número de peças passou de 60.

Pintura ou foto?
Ainda assim, a sensação de que se está diante de uma coleção potente segue preservada. Já na rotunda do centro cultural do Rio, surge o monumental retrato — de mais de 6 metros de altura e 4 de largura — de uma criança muito pálida, de olhos fechados, minuciosamente representada pelo austríaco Gottfried Helnwein. A obra na entrada do CCBB serve como pista para um tema caro à exposição e também à toda coleção dos Ludwig: o do hiper-realismo, que deixa o espectador em dúvida sobre estar diante de uma pintura ou de uma fotografia (no caso do retrato na rotunda, uma pintura).
A voltagem hiper-realista é enfática numa das quatro salas da exposição (talvez a mais importante delas), com o imponente painel “48 retratos”, que o alemão Gerhard Richter (o artista vivo mais caro do mundo) criou para apresentar na Bienal de Veneza de 1972.
A partir de fotografias, ele refez com tinta a óleo o rosto de 48 intelectuais do século XX, como Oscar Wilde, Franz Kafka e Rainer Maria Rilke. O painel que veio ao Brasil é uma reprodução do original em fotografia (também feita por Richter), como se o artista brincasse com o trânsito entre os suportes.
— O público vai acabar usufruindo mais desta sala (onde está “48 retratos”), porque aqui trabalhamos o diálogo entre fotografia e pintura — diz a cubana Ania Rodríguez, uma das quatro curadoras da exposição. — Quando surgiu, nos anos 1970, a obra de Richter causou furor, foi um marco dessa pintura que dialoga com foto. É uma obra-prima do século XX.
Na parede exatamente oposta à dos 48 retratos do pintor alemão, estão outros 48 retratos — desta vez, só de mulheres. É o irônico trabalho criado por Gottfried Helnwein em 1991, como uma resposta ao painel exclusivamente masculino de Richter. Pina Bausch, Tina Turner e Marilyn Monroe estão retratadas nos “48 retratos” de Gottfried. Os dois painéis não foram apresentados na íntegra em São Paulo, onde acabaram “cortados” por falta de espaço.
Os curadores da mostra — além de Ania Rodríguez, assinam a exposição o brasileiro Rodolfo Athayde e os russos Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky (do Museu Ludwig, em São Petersburgo) — tiveram trabalho árduo para pinçar entre as milhares de obras do acervo particular aquelas que, finalmente, viriam ao país. Foram muitos anos de negociação e, segundo Kiblitsky, “era difícil fazer um recorte partindo de toda a coleção Ludwig, que é muito grande”.
— Um dos principais diferenciais de Peter Ludwig (1925-1996) como colecionador é que, para ele, o exercício de colecionar arte foi uma questão cotidiana até o ponto de se tornar um trabalho — diz Evgenia Petrova.

Diálogo com mostra no MAM
Esta, aliás, será a segunda exposição atualmente em cartaz no Rio dedicada ao olhar de um colecionador particular — o Museu de Arte Moderna (MAM) apresenta, até 25 de maio, a mostra “A inusitada coleção de Sylvio Perlstein”, com obras do colecionador belga que, assim como Peter e Irene Ludwig (1927-2010), conviveu com artistas, apostou em trabalhos que só mais tarde seriam reconhecidos e fez da arte de colecionar um mote para a vida.
Foi no convívio com Man Ray, por exemplo, que Perlstein formou uma poderosa coleção de fotos do surrealista, ou que Peter Ludwig acabou retratado por Andy Warhol numa serigrafia de 1980.
Mas se Perlstein (empresário do ramo da mineração diamante que conviveu não só com Man Ray, mas com Robert Ryman e Sol LeWitt, entre outros) guardou as obras no próprio apartamento em Paris (e as “revelou” em empréstimos para exposições públicas, como a do MAM), Peter e Irene Ludwig, donos de uma fábrica de chocolates em Colônia, na Alemanha, decidiram desde o final dos anos 1950 doar suas peças para instituições europeias por não poderem guardá-las, mas também com “a clara intenção de mostrar sua coleção ao público, de democratizar seu acervo privado”, nas palavras de Evgenia Petrova.
Os dois acabaram formando ao todo 14 museus Ludwig espalhados pelo mundo. O “coração” do acervo fica na Alemanha, mas o casal criou até uma fundação em Cuba, em 1995, e doou antiguidades para a construção de um museu em Basel, na Suíça.
— Um dos interesses de Peter era levar obras para preencher lacunas nos acervos de museus que visitavam. Para a Rússia, por exemplo, doaram obras da arte pop e do hiper-realismo, além de Picasso — conta Ania Rodríguez, lembrando que Peter Ludwig é dono da terceira maior coleção do mundo do artista espanhol.
Picasso é uma das três grandes potências da coleção, ao lado da arte pop e da vanguarda russa — esta ocupa espaço menor na mostra que chega ao CCBB do Rio, concentrada sobretudo na última sala da exposição.
— Sinto que uma das coisas que identificam Sylvio Perlstein e Peter Ludwig é o fato de gostarem de arte, de se verem envolvidos com o ambiente artístico não como um passo calculado para criar uma coleção valiosa ou uma rede de museus, como acabou acontecendo no caso dos Ludwig. Tanto que esses colecionadores adquiriram suas fortunas em outras áreas. O colecionismo nesses casos tinha mais sentido artístico, de preencher necessidades afetivas, e não materiais — avalia Ania Rodríguez. — A coleção Ludwig mostra que ele se guiou por contextos, por acreditar que, onde havia efervescência, havia uma arte efervescente, como a arte pop. E hoje vemos que ele acertou.

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