14/07/2014

Museu de Anatomia Mórbida é inaugurado nos Estados Unidos

Local vai reunir estudiosos e curiosos pelo tema através de palestras e eventos especiais

por Jennifer Schuessler                                  12/07/2014 | 02h15

Novo Museu de Anatomia Mórbida, inaugurado no Brooklyn em
junho com uma entusiasmada festa de boas-vindas ao Anjo da 
Morte. 
Foto: Tony Cenicola / NYTNS




A maioria das pessoas não presta muita atenção à morte até que ela, gentilmente (ou nem tanto), imponha sua presença. Mas agora chega até nós o novo Museu de Anatomia Mórbida, inaugurado no Brooklyn em junho com uma entusiasmada festa de boas-vindas ao Anjo da Morte.

A festa contou com uma fita cortada em frente à estilosa fachada preta, uma cabine fotográfica dos espíritos e alimentos tradicionalmente associados ao luto, preparados a partir de um livro de receitas chamado "Death Warmed Over" ("Morte Requentada", em tradução livre). Mas a missão do museu em um sentido mais amplo – apresentar aspectos da cultura que normalmente ignoramos por serem mórbidos ou marginais – é profundamente (se não mortalmente) séria, disse recentemente Joanna Ebenstein, diretora criativa e alma por trás do museu.

— Quero que as pessoas entrem no museu e digam: 'Uau! Isso é muito interessante. Por que não sabíamos disso? E o que isso nos mostra a respeito de nós mesmos?'—, disse ela.

O museu sem fins lucrativos evoluiu a partir da Biblioteca de Anatomia Mórbida, coleção particular de Ebenstein que inclui mais de dois mil livros sobre história da medicina, rituais fúnebres, corpo humano e esoterismo, que até recentemente localizava-se em uma sala minúscula escondida em um beco. Nesse espaço modesto, as atividades ligadas à Biblioteca de Anatomia Mórbida tomaram a forma de uma série de palestras regulares que reuniam artistas, escritores, curadores e amadores apaixonados, dedicados ao que ela resume como — aquelas coisas fugidias —.

Agora, a marca Anatomia Mórbida – que inclui um blog popular e uma antologia que acaba de ser publicada – está se tornando cada vez mais conhecida, ocupando hoje uma nova e elegante casa de três andares.

O edifício reformado conta com uma biblioteca, um espaço para palestras, uma galeria para exposições temporárias e um café no piso térreo que podem atrair desavisados sem interesse prévio em taxidermia vitoriana ou modelos anatômicos do Renascimento. Mas embora o público possa mudar, disse Ebenstein, a missão – com destaque para o que é obscuro, esquecido e estranhamente belo – não mudou.

Esses adjetivos se aplicam à primeira exposição do museu, "A Arte do Luto", que apresenta mais de 90 objetos – fotografias, penteados vitorianos, louças, máscaras mortuárias – que possivelmente passaram por salões respeitáveis, exibidos em um estilo que une galerias de arte convencionais (paredes brancas, notas explicativas) ao espírito dos antigos museus de curiosidades.

Antes da abertura, visitamos os espaços privados de três colecionadores – todos colaboradores desta primeira exposição – cuja abordagem de objetos às vezes surpreendentes e que prendem a atenção vai do científico ao prático, passando pelo poético.

— Coleções particulares às vezes possuem características que precisam ser adaptadas a museus —, disse Ebenstein. — Parte da diversão da curadoria está em conhecer essas coleções e descobrir o que elas têm —.

O homem da ciência esquecida

O Arquivo Burns pode ser uma das mais importantes coleções de fotografia privadas do país, mas a estética de sua antiga sede, um tríplex de 19 salas em Manhattan, está mais para a série de documentário "Hoarders" do que para o Museu de Fotografia George Eastman.

Mais de um milhão de imagens da história da medicina e do — lado sombrio da vida—, palavras do criador do arquivo, o Dr. Stanley Burns – compõem a coleção. As imagens estão basicamente armazenadas, recheando gavetas, empilhadas em armários e afixadas em todas as paredes, inclusive no banheiro.

— Esta é a nossa coleção de psiquiatria —, disse Burns recentemente, acendendo a luz de um banheiro repleto de caixas e pastas com imagens raras, antes de abrir novamente a porta para revelar uma surpresa: uma fotografia de 1895, nunca antes publicada, de uma criança negra tocando um bandolim em um galho de árvore ao lado de um pássaro preto altamente simbólico. — Esta é uma imagem única e extremamente interessante —, disse ele num tom impetuoso. — Foi a forma que um fotógrafo do Brooklyn encontrou para protestar contra as leis de Jim Crow. Algo único —.

O "museion" de Burns, como diz seu cartão de visita – um termo derivado do grego para designar — um lugar para estimular as pessoas —, explicou ele – costuma estar aberto apenas para pesquisadores e pacientes oftalmológicos que ele atende uma vez por semana.

— Todos adoram —, disse ele, mencionando uma ilustre senhora que — veio para passar 15 minutos e ficou seis horas — passeando pelas fotos da história de Nova York, imagens raras do início da história das cirurgias e até um papel de parede que mostra retratos de daguerreótipos emoldurados.

A curadora da beleza

Evan Michelson, uma das proprietárias da loja de antiguidades e curiosidades Obscura, em Manhattan, e pesquisadora do Museu da Anatomia Mórbida, tem uma citação favorita entre os escritos de Emily Dickinson: — A natureza é uma casa assombrada, mas a Arte é uma casa que tenta ser assombrada—.

A própria residência de Michelson em Plainfield, em Nova Jersey, construída no estilo vitoriano, é cheia de coisas belas e mortas, mas seus fantasmas mais fascinantes nunca estiveram vivos: um bando de manequins de cera de lojas de departamentos do início do século 20 distribuídos em várias salas, com um olhar assustadoramente realista.

— Eles até são uma boa companhia. Mas no meio da noite, podem ser aterrorizantes —, disse ela recentemente.

Michelson diz ter sido uma garota estudiosa e introvertida que se tornou "totalmente obcecada" pelos primórdios da arquitetura e por objetos eclesiásticos durante viagens para a Europa, coletando fotografias antigas das catacumbas de Palermo e outras lembranças macabras. Depois de rodar por Nova York como musicista e artista performática, começou a trabalhar na área de antiguidades, vindo a abrir a Obscura com Mike Zohn em 2001.

Um dia, um amigo em comum lhe apresentou Ebenstein, e Michelson viu nela uma alma gêmea, cujo interesse em taxidermia, antiguidades médicas e outros objetos esotéricos era bem maior do que o que sentiriam por meros itens de decoração.

A casa de Michelson é cheia de objetos dos quais ela não consegue se separar. Em sua sala de estudo, há armários de madeira escura cheios de justaposições poéticas: um livro de recortes artesanal de 1860, cheio de mechas de cabelo, perto de uma água-viva preservada; o osso do ouvido de uma baleia, não muito distante de um modelo médico de cera do início do século 20 com o rótulo "Tuberculose cutânea verrucosa na mão de um açougueiro". Na sala de estar, Michelson mostra um caracol gigante de papel machê feito pelo grande artífice de modelos anatômicos franceses do século 19, o Dr. Louis Auzoux, e começa a retirar as suas camadas para revelar o que se esconde em seu interior.

Os museus de curiosidade, explicou ela, floresceram na Renascença, mas com o avanço da ciência, a estética migrou para a esfera doméstica, própria do artesanato. Sua coleção inclui inúmeras peças do século 19 feitas por mulheres, como um prato de doces de cera fúnebre com hematomas cuidadosamente pintados.

— Era impressionante o tempo que as mulheres gastavam com isso, já que não tinham mais nada para fazer. É uma coisa muito estranha —, disse Michelson.

A artista mórbida

A desordenada sala de estar de Karen Bachmann no Brooklyn se parece com a de qualquer outra família com crianças pequenas – até você perceber os ossos de um pé humano em uma das paredes.

— Eu costumava usá-lo no cabelo quando fazia escola de arte. Fazia um coque e usava o pé como se fosse um grampo —, explicou Bachmann.

Bachmann, joalheira independente que dá aulas no Fashion Institute of Technology e no Instituto Pratt, não usa mais o pé, mas ainda faz coisas heterodoxas com o cabelo, seu ou de outras pessoas. Ela é especialista em obras feitas com cabelo, uma arte doméstica popular no século 19 – a Exposição de Paris de 1855 teve um retrato em tamanho natural da Rainha Vitória feito inteiramente de cabelo humano – que praticamente desapareceu na década de 1920.

Quando era aluna na Pratt, Bachmann fez colares de corações de galinha e esculturas com órgãos de animais em sacos plásticos apertados com espartilhos.

— Uma professora disse que minhas criações eram grotescas. Fiquei ofendida, mas, em seguida, decidi tomar isso como um elogio. Além disso, tenho certeza de que sou a única aluna dela que chegou a trabalhar na Tiffany & Co —, lembrou ela.

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