03/11/2014

Pioneiro no Rio, projeto oferece visitas ao museu para bebês a partir de três meses de idade


Para muitos, passeio é o primeiro contato com a arte. Estímulos sensoriais e aposta na interação fazem da experiência momento especial para pais e filhos.

Por Lucas Soares
É ao som da tradicional cantiga que um grupo de onze bebês começa a ter os primeiros contatos com a arte. A música, que reproduz o triste desentendimento entre a rosa e o cravo, é, neste dia, trilha sonora da visita - para muitos a primeira - ao museu.
O pequeno Miguel, por exemplo, tem apenas seis meses, mas costuma ir a exposições de arte com uma regularidade maior do que a de muitos adultos. Já Elisa, de 11 meses, se mostra encantada com as cores dos quadros e faz da ida ao museu um divertimento a parte.
Apesar da pouca idade, ambos já dão os primeiros passos na iniciação artística há algum tempo. Os dois participam de um projeto desenvolvido pelo Museu de Arte Naïf do Rio de Janeiro que recebe bebês a partir do terceiro mês de vida em visitas temáticas mensais. O Caminhos acompanhou uma dessas visitas.


Logo na entrada os pequeninos são recepcionados com objetos lúdicos de diferentes tamanhos, cores, formas e volumes. A turma se diverte transformando em brinquedo aquilo que, na visão tradicional, seria qualificado como um objeto sem valor. Eles se deleitam. E os pais também entram na brincadeira. O momento de interação é mais um 'quebra-gelo'.
Entre os bebês mais animados está Miguel. A companhia do primo Daniel, de um ano, faz a brincadeira em família especial: estão primo, tia, pai e mãe, a engenheira ambiental Carina Renó, que relata ter feito dos passeios ao museu um programa obrigatório todo mês.
Oficialmente, a visita começa no primeiro piso da galeria, que guarda uma coleção de arte naïf dedicada à Cidade Maravilhosa. A icônica tela 'Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz', da artista Lia Mittarakis, que retrata os principais símbolos cariocas, chama a atenção do visitante de cara. Não podia ser diferente com os bebês.
No entanto, para eles, qualquer detalhe chama a atenção de uma forma especial. É difícil explicar o que os atrai. Uma cor mais forte, uma forma mais chamativa... Há quadros que hipnotizam. É o caso da tela 'As mascaradas', do artista naïf Gerson Alves de Souza, que traz um personagem cujo olhar profundo fixa o observador... É com atenção que Elisa observa o quadro. Junto do pai, o técnico em operação Vinicius Ferreira, que acompanha a filha ao museu pela segunda vez, é ela quem conduz o passeio, planejado pela mãe.
Após conhecerem a galeria principal, bebês e família se reúnem então para o momento mais importante da visita: a apreciação do quadro do dia. Em celebração à primavera, o tema do dia era 'Eu vejo flores em você'. Para esta sessão, a obra escolhida foi 'São Francisco e os animais', do artista português Jorge. Retirado da parede, ela é colocada num pequeno pedestal, a altura dos olhos dos nenéns.
Em roda, junto com os pais, os pequenos são estimulados a sentir os elementos da tela. Uma chuva de pétalas, por exemplo, faz referência às flores ilustradas no quadro. Já as miniaturas de animais são um convite para o processo de reconhecimento deles no quadro. E como será o som que cada bicho faz? É assim, a partir de uma experiência sinestésica, que eles são apresentados à arte e, porque não dizer, ao mundo a partir dos sentidos.
Lorenzo, de 11 meses, se diverte com a chuva de flor. Ele veio acompanhado da irmã Valentina, de dois anos. A avó, Iara Gomes, que os levou pela primeira vez ao museu, classificou a visita como positiva.
A administradora Andrea Azevedo, mãe de Vicente, de um ano e um mês, organizou uma excursão para levar o filho e os amiguinhos da creche. Ao todo, foram oito crianças da mesma instituição. As mães mantêm um grupo no aplicativo Whatsapp e foi, a partir dele, que o encontro foi organizado. A experiência de levar os filhos ao museu foi enriquecedora para os bebês, mas também, para os pais que estreitaram mais ainda os laços de relacionamento.
A especificidade da arte naïf chama a atenção dos bebês por si só. Cores fortes, formas distintas atraem o olhar dos pequenos. A palavra naïf é de origem francesa e significa ingênuo. Em termos gerais, este tipo de arte é comumente produzida por artistas sem formação acadêmica específica. Ela é caracterizada pela simplicidade e pela ausência de elementos formais como a perspectiva, a harmonia, a composição ou mesmo referências tradicionais das pinturas.
Para Tatiana Levy, coordenadora socioeducativa que conduz a visita, a pintura naïf é aquela pintada com o coração. Ela explica que assim como a arte, simples na essência, a ideia é que o passeio também seja conduzido com a mesma leveza.
Para os pais que tiverem interesse em levar os pequenos a uma experiência no museu, o de Arte Naïf do Rio de Janeiro funciona no Cosme Velho, na Zona Sul da cidade, e as visitas devem ser previamente agendadas no início de cada mês, já que há um limite de 16 bebês por grupo. Há turmas para nenéns de três meses até um ano e outra para crianças de um ano até três anos, dedicada àquelas que já andam e, por isso, exploram o espaço de maneira diferente.
O tema de cada visita pode ser consultado com antecedência no site da instituição, que é o museunaif.com. A atividade mediada costuma durar cerca de 30 minutos e a visitação em seguida é livre.


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