06/04/2014

Jovens da Favela da Maré expõem no Museu de Arte do Rio

“A fotografia serve para abrir os olhos das pessoas, para fazê-las enxergar o que é a realidade delas”, afirma Ruan Torquato, um dos integrantes do Mão na Lata, programa de arte-educação que usa a literatura e a linguagem fotográfica.

 Mas mais que a sua realidade, as imagens produzidas por Ruan e seus amigos conectam um Rio de Janeiro do século 19 com a Cidade Maravilhosa dos dias atuais. Estas fotos compõem o livro Cada Dia Meu Pensamento é Diferente (Nau Editora, 2003, 204 págs.) e a exposição homônima, em cartaz até 13 de abril no Museu de Arte do Rio, o MAR.

O projeto Mão na Lata, criado pela fotógrafa, designer e educadora Tatiana Altberg em parceria com a Oscip Redes de Desenvolvimento da Maré em 2003, promove oficinas de fotografia artesanal para jovens de 11 a 17 anos na comunidade da Maré. A técnica usada nas oficinas é o pinhole, na qual os próprios participantes confecionam suas câmeras a partir de latas de alumínio recicladas, revelam os filmes e escaneiam as imagens.

A ideia é compor as fotografias por meio de narrativas literárias que os alunos estudam a cada encontro. Em Cada Dia Meu Pensamento é Diferente, os participantes trabalharam em contos do escritor Machado de Assis e saíram pela cidade em busca de um Rio de Janeiro presente na obra do autor. “Existe uma circulação pequena desses alunos pela cidade como um todo. O percurso cotidiano deles é em grande parte na Maré. A gente foi pra esse Rio de Janeiro do século 19 e foi um choque para eles. Ao mesmo tempo, eles ficaram muito impressionados com a conservação das coisas, ao ver como é difícil preservar essa memória”, afirma Tatiana.

Segundo Luiza Leite, professora de Literatura do projeto, as discussões em sala levaram os alunos para o que chama de “atmosfera machadiana”: “O Machado trabalha muito mais com uma espécie de paisagem interior dos personagens, os conflitos internos. A ideia foi começar do mais externo para o mais subjetivo. Começamos lendo outros autores, para depois ler o Machado de Assis e finalmente escrever biografias, auto-biografias, textos sobre a própria vida”.

As imagens foram produzidas em 2012 e retratam os conflitos éticos, dilemas morais e a crítica presente na obra de Machado sob o ponto de vista dos jovens da Maré. O passado e o presente são sobrepostos em imagens de lugares citados pelo autor em seus contos e em locais que os jovens fotógrafos transitam em seu dia a dia. Por meio de textos e imagens, é como se eles fizessem uma reinterpretação de suas próprias vidas.

É por isso que o resultado do trabalho parece ser mais do que o livro de fotos e a exposição no MAR. “Perceber que sua própria vida é matéria para literatura é fundamental e eu acho que eles conquistaram isso ao longo deste trabalho. É um processo muito vagaroso, um trabalho de construção. Cada encontro é dedicado à leitura de um pequeno conto e depois à construção de uma pequena narrativa. Quando você começa a ler o que os outros escrevem, começa a perceber que também pode escrever e que qualquer coisa da própria vida ou do entorno onde você mora pode ser narrada”, afirma Luiza Leite no vídeo de apresentação da exposição Cada Dia Meu Pensamento é Diferente.

 http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=10&id_noticia=238322

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